No momento, você está visualizando Predestinação Divina: O Paradoxo Entre Isabel de Castela e os Papas Bórgia

Predestinação Divina: O Paradoxo Entre Isabel de Castela e os Papas Bórgia

Gostou? Compartilhe:

Há perguntas que não nos deixam dormir. Há paradoxos que atravessam séculos sem solução. E há momentos na história onde Deus e o diabo parecem ter assinado o mesmo contrato.

Isabel de Castela foi predestinada? Se sim, Deus também quis os papas Bórgia? Quis a Inquisição? Quis o genocídio da América? Ou será que a Providência Divina escreve certo por linhas tortas, usando até o mal para realizar propósitos maiores?

Como estudioso da história do Vaticano há décadas, como filósofo formado na linha tomista e aristotélica, essas questões me assombram. Porque não há resposta fácil. Só há contemplação do abismo entre o sagrado e o profano.

O Problema Teológico Que Ninguém Quer Enfrentar

Comecemos pelo núcleo da questão. A teologia cristã mais antiga nos ensina sobre a Providência Divina – aquela que transforma o mal em bem, que usa até a traição para cumprir desígnios eternos. José do Egito, vendido como escravo pelos próprios irmãos, disse no final da vida: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem.”

Será que Alexandre VI – Rodrigo Bórgia, o papa mais corrupto da história – era o mal que Deus usou para produzir bem?

Porque aqui está o fato irrefutável: sem Bórgia, os Reis Católicos não teriam feito o que fizeram.

Pense comigo. Na mesma época, havia impérios muito mais poderosos que Castela. O Sacro Império Romano-Germânico. A França. A Inglaterra. Veneza no auge do seu poder comercial. E o que esses impérios fizeram de proezas territoriais ou missionárias comparáveis?

Nada.

Por quê? Porque não tinham um papa disposto a abençoar qualquer atrocidade em troca de ouro e lealdade política.

Papa Alexandre VI

Alexandre VI: Viabilizador Essencial do Projeto Imperial

Rodrigo Bórgia não foi apenas cúmplice. Ele foi o viabilizador essencial da expansão espanhola.

Sem a bula Inter Caetera, Colombo chega na América e Portugal contesta imediatamente. Vira guerra europeia. Vira disputa papal prolongada. Outro papa – um papa decente – teria exigido negociações, tratados, respeito aos nativos, investigações éticas.

Bórgia simplesmente disse: “É de vocês. Façam o que quiserem. Deus aprova.”

Na França em 1498, Luís XII acabava de ser coroado rei e tinha um problema matrimonial. Estava casado com Joana de Valois, mas queria casar com Ana da Bretanha – viúva de seu primo – para anexar definitivamente aquele território à França. Era estratégia política pura.

O obstáculo? Ele era católico e estava canonicamente casado.

Para quem recorreu? Alexandre VI.

Luís XII alegou consanguinidade e coerção no casamento. Alegações frágeis, quase ridículas. Qualquer papa com um mínimo de decência teria rejeitado.

Mas Bórgia negociou. E vendeu a anulação.

O preço? Trinta mil ducados. Uma fortuna. Mais o apoio militar francês para as conquistas de César Bórgia na Romanha. Mais o título de Duque de Valentinois para seu filho bastardo.

Anulação concedida. Luís XII casou-se com Ana da Bretanha em janeiro de 1499. A Bretanha foi anexada à França. César Bórgia tornou-se duque francês. Alexandre VI enriqueceu.

Todo mundo ganhou. Menos a pobre Joana de Valois, descartada como peça de xadrez.

A Hipótese Que Reescreve a História do Cisma Anglicano

Portanto, está comprovado: Rodrigo Bórgia vendia anulações matrimoniais sem o menor escrúpulo moral.

E aqui surge uma hipótese devastadora.

Catarina de Aragão – filha de Isabel e Fernando – casou-se com Henrique VIII da Inglaterra em 1509. O casamento não produziu herdeiro homem. Henrique quis anular. Roma recusou. Henrique rompeu com Roma. Criou a Igreja Anglicana. Cisma total.

Isso aconteceu em 1534.

Isabel havia morrido em 1504. Fernando em 1516. Alexandre VI em 1503.

Mas imagine – apenas como experimento mental filosófico – que essa tríade ainda estivesse viva e no poder quando Henrique pediu a anulação.

Isabel, a rainha predestinada, mãe de Catarina. Fernando, o maquiavélico rei que eliminava inimigos políticos com veneno e punhal. Alexandre VI, o papa corrupto que comprovadamente vendia anulações por trinta mil ducados.

Você acredita que Henrique VIII teria ousado separar-se da Igreja e repudiar a filha dos Reis Católicos?

Jamais.

Isabel teria mobilizado toda a cristandade católica contra ele. Fernando teria tramado seu assassinato – como fez com Felipe, o Belo, seu próprio genro. E Alexandre VI teria feito exatamente o que fez com Luís XII: oferecido a Henrique a anulação. Por um preço. Por uma aliança. Por vantagens geopolíticas.

Porque Bórgia negociava tudo. Ele já tinha provado isso.

O cisma anglicano aconteceu porque aquela tríade de poder já não existia. O papa em 1534 era Clemente VII – não era santo, mas também não era Bórgia. E estava preso politicamente: o sobrinho de Catarina era Carlos V, o Sacro Imperador Romano-Germânico, o homem mais poderoso da Europa. Clemente VII não podia conceder a anulação sem declarar guerra ao império.

Mas Bórgia? Bórgia não se importaria com Carlos V se o preço fosse alto o suficiente.

O Paradoxo Final: Quando Deus e o Diabo Precisam dos Mesmos Eventos

Então aqui está o paradoxo que não me deixa em paz.

Sem o papa corrupto, os Reis Católicos não teriam feito o que fizeram. Não teriam a Inquisição naquela escala genocida. Não teriam enviado Colombo com aquela bula permissiva. Não teriam o massacre sistemático da América.

Mas também – e isso é perturbador – sem aquela tríade de poder, outro desastre aconteceu: o cisma anglicano que fragmentou a cristandade.

É como se a história nos perguntasse: “Você prefere ter um papa corrupto que mantém a unidade da Igreja a ferro e ouro? Ou um papa menos corrupto que permite que a Igreja se fragmente em cismas irreversíveis?”

Você prefere ter a América cristianizada ao custo de milhões de mortos? Ou preservar os povos nativos ao custo de nunca termos as nações latino-americanas como as conhecemos?

Não há resposta boa.

Porque talvez – e isso é o que mais me inquieta como filósofo e teólogo – talvez Deus e o diabo precisassem dos mesmos eventos para realizar planos opostos.

Deus queria levar o Evangelho ao Novo Mundo. Conseguiu. Mas a que custo?

O diabo queria morte, destruição, genocídio. Conseguiu. Mas no processo, o Evangelho se espalhou por todo um continente.

Quem venceu?

Isabel: Heroína, Conquistadora ou Sanguinária?

Tomás de Aquino escreveu na Suma Teológica que “Deus pode tirar bem até do mal, mas não faria o mal para obter o bem.” Mas e quando o bem e o mal se tornam indistinguíveis na trama da história?

Isabel morreu em 1504. Foi enterrada como heroína. Como unificadora da Espanha. Como a rainha que expulsou os mouros após séculos de ocupação. Como patrona de Colombo. Como a mulher que levou Cristo ao Novo Mundo.

Mas foi heroína? Conquistadora visionária? Ou sanguinária sistemática?

Predestinada por Deus? Ou instrumento do diabo?

As seis coisas ao mesmo tempo?

Porque talvez – apenas talvez – a predestinação não seja sobre bondade ou maldade. Seja apenas sobre necessidade histórica.

Isabel precisava existir para que a história seguisse determinado curso. E para que Isabel fizesse o que fez, era necessário que existisse um papa sem escrúpulos morais. Um papa que vendesse bulas por ouro. Um papa que anulasse casamentos por conveniência política. Um papa que fechasse os olhos para genocídios em troca de poder temporal.

Será isso que significa providência divina? Que Deus usa até os piores instrumentos para cumprir propósitos que nossa mente finita não consegue compreender?

Ou será que estamos apenas tentando dar sentido teológico ao caos moral da história?

A Equação Impossível Que Carregamos

Nas minhas décadas como estudioso da história do Vaticano, aprendi que os maiores paradoxos nunca se resolvem. Apenas se contemplam.

Porque nós somos o resultado dessa equação impossível.

Somos descendentes dessa história violenta e sagrada. Carregamos o peso do paradoxo sem poder escapar dele. O sangue dos nativos mortos. O Evangelho pregado em espanhol. A Inquisição queimando judeus enquanto missionários batizavam índios. Alexandre VI vendendo indulgências enquanto franciscanos morriam evangelizando.

Tudo ao mesmo tempo. Tudo interligado. Tudo indissociável.

E talvez – apenas talvez – a resposta seja que ambos venceram. Deus e o diabo. E ambos perderam. E nós herdamos essa vitória-derrota sem saber direito o que fazer com ela.

Porque alguns paradoxos não têm solução. Apenas contemplação reverente diante do mistério da história humana.

E porque às vezes a predestinação exige o impensável.

E porque às vezes o diabo tem carteira assinada no Vaticano.

Aviso Final

Este conteúdo reflete as reflexões de Juvenil Alves, filósofo, teólogo, psicanalista e jurista.

Siga nossas redes e fique por dentro de assuntos como esse e muito mais!
Instagram
Spotify
Linkedin
Whatsapp


Gostou? Compartilhe: