Eu confesso: passo noites em claro com livros. Não é insônia, é escolha deliberada. Como alguém que dedicou mais de quatro décadas à advocacia e à filosofia, aprendi que os grandes livros funcionam como espelhos: revelam não apenas o mundo, mas a nós mesmos. E este ano, a crítica literária internacional selecionou obras que fazem exatamente isso, confrontam nossa humanidade com uma honestidade que dói e cura ao mesmo tempo.
Que livros são esses que conseguem capturar o espírito de uma época? Tomei conhecimento da lista através de uma amiga editora e, desde então, venho mergulhando nessas páginas com a curiosidade de um estudante e a experiência de quem já viu muitas estações passarem. O resultado é uma seleção que oscila entre a intimidade devastadora do memorialismo e a grandiosidade épica da ficção contemporânea.
A Lista Completa: Os 10 Eleitos de 2025
FICÇÃO
- The Loneliness of Sonia and Sunny — Kiran Desai
- Angel Down — Daniel Kraus
- The Sisters — Jonas Hassen Khemiri
- The Director — Daniel Kehlmann (tradução de Ross Benjamin)
- Stone Yard Devotional — Charlotte Wood
NÃO-FICÇÃO
- A Marriage at Sea: A True Story of Love, Obsession, and Shipwreck — Sophie Elmhirst
- Wild Thing — Sue Prideaux
- Mother Emanuel — Kevin Sack
- There Is No Place for Us: Working and Homeless in America — Brian Goldstone
- Mother Mary Comes to Me — Arundhati Roy
O Cenário Literário de 2025: Entre Crises e Revelações
Vivemos tempos de aceleração brutal. A inteligência artificial escreve textos em segundos, as redes sociais fragmentam nossa atenção em pedaços cada vez menores, e ainda assim paradoxalmente, 2025 produziu uma safra literária de profundidade rara. Talvez seja justamente porque a superficialidade nos cerca que a literatura tenha encontrado seu nicho como refúgio para quem busca sentido.
Esses dez livros não são apenas boas histórias. São diagnósticos de uma civilização em transformação. Cinco obras de ficção e cinco de não-ficção que, juntas, compõem um mosaico do que significa ser humano neste exato momento da história.
Como bem observou Aristóteles, a literatura não nos conta o que aconteceu, mas o que poderia acontecer, e nisso reside seu poder de nos preparar para a vida real. A crítica literária séria parece ter levado essa máxima a sério ao selecionar esta lista.
As Cinco Joias da Ficção Contemporânea
A Solidão de Sonia e Sunny: Um Épico para Corações Desenraizados
Kiran Desai esperou quase duas décadas para lançar The Loneliness of Sonia and Sunny, e valeu cada dia de espera. O romance acompanha dois jovens indianos, ela, uma aspirante a escritora fugindo de um relacionamento abusivo; ele, um jornalista tentando escapar de uma mãe dominadora, cujos caminhos se cruzam em um trem noturno.
Quer saber o que torna este livro especial? Desai consegue, em quase 700 páginas, capturar aquela solidão específica de quem vive entre duas culturas sem pertencer completamente a nenhuma. A crítica especializada chamou a obra de “obra-prima”, e não exagerou. É o único livro presente nas três principais listas de melhores do ano, incluindo Amazon e Barnes & Noble.
Angel Down: A Guerra como Nunca Vista
Daniel Kraus, autor do aclamado Whalefall, entrega em Angel Down um romance de guerra que a crítica descreveu como “um galope trovejante, um novo clássico da ficção especulativa”. A narrativa explora os horrores e a humanidade nos campos de batalha com uma intensidade visceral que poucos autores contemporâneos conseguem alcançar.
Stone Yard Devotional: O Silêncio como Revelação
Stone Yard Devotional, de Charlotte Wood, finalista do Booker Prize, narra a história de uma mulher de meia-idade que se refugia em uma comunidade religiosa no interior da Austrália, sem acreditar em Deus. É uma meditação sobre o perdão, o luto e o significado do retiro em um mundo hiperconectado.
Fique de olho: Wood não oferece respostas fáceis. Sua protagonista não encontra a fé perdida, nem a paz definitiva. O que encontra — e o que nós encontramos como leitores — é algo mais raro: permissão para habitar a incerteza sem desespero.
As Demais Preciosidades Ficcionais
Daniel Kehlmann entrega em The Director uma narrativa sobre um cineasta austríaco durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto Jonas Hassen Khemiri, com The Sisters, constrói uma saga familiar que cruza gerações e continentes. Cada um, à sua maneira, interroga como as grandes forças históricas moldam destinos individuais.
A Força da Não-Ficção: Realidade que Supera a Imaginação
There Is No Place for Us: O Escândalo dos Trabalhadores Sem-Teto
Brian Goldstone, jornalista com doutorado em antropologia, passou anos acompanhando cinco famílias em Atlanta que trabalham em tempo integral e, mesmo assim, não conseguem manter um teto sobre suas cabeças. O resultado é There Is No Place for Us, uma obra comparada aos clássicos Random Family e Evicted.
Mas aqui está o problema: essas famílias não são vítimas de uma economia em crise, são vítimas de uma economia em expansão. A gentrificação, os aluguéis estratosféricos e os salários estagnados criaram uma nova categoria social invisível nas estatísticas oficiais. Goldstone documenta pessoas que dormem em carros, acordam, vão trabalhar, e repetem o ciclo dia após dia.
Mother Mary Comes to Me: Arundhati Roy e a Tempestade Materna
Arundhati Roy, vencedora do Booker Prize por O Deus das Pequenas Coisas, entrega seu primeiro livro de memórias quase três décadas depois. Mother Mary Comes to Me é uma investigação corajosa de sua relação com a mãe, Mary Roy, uma mulher que ela descreve como “meu abrigo e minha tempestade”.
Roy fugiu de casa aos 18 anos, não porque não amava a mãe, mas para poder continuar amando-a. Essa tensão entre proximidade e distância, entre admiração e ressentimento, percorre cada página do livro. “Ela era como um aeroporto sem pistas de pouso”, escreve Roy. “Você nunca conseguia aterrissar.”
Mother Emanuel: A Igreja que Enfrentou a História
Kevin Sack, jornalista vencedor do Pulitzer, oferece em Mother Emanuel uma história monumental de uma das igrejas afro-americanas mais importantes dos Estados Unidos. A crítica descreveu como “uma obra-prima densa e rica” que narra a coragem e a graça em meio à luta por justiça racial.
Outras Vozes da Realidade
Sophie Elmhirst contribui com A Marriage at Sea, uma história real de amor, obsessão e naufrágio que lê como thriller, finalista do Kirkus Prize. Sue Prideaux, com Wild Thing, completa o quinteto de não-ficção com uma obra que explora os limites entre natureza e civilização.
O Que Esses Livros Dizem Sobre Nós
Observo um padrão nesta lista que merece reflexão. Quase todas as obras tratam de deslocamento, geográfico, emocional, social. Sonia e Sunny são indianos perdidos entre a Índia e os Estados Unidos. As famílias de Goldstone são americanas expulsas do sonho americano. Arundhati Roy é uma filha tentando encontrar seu lugar na sombra de uma mãe gigantesca.
Tomás de Aquino escreveu que “o bem difunde-se a si mesmo”, bonum est diffusivum sui. Talvez a literatura funcione assim: os bons livros se espalham porque tocam algo universal em nós, algo que transcende fronteiras, idiomas e épocas. A solidão de Sonia é minha solidão. A fome por dignidade das famílias de Atlanta é nossa fome coletiva.
Quer saber o melhor? Cada um desses livros resiste à tentação do cinismo fácil. Mesmo nas histórias mais sombrias — e algumas são devastadoras —, há uma recusa em abandonar a esperança. Não uma esperança ingênua, mas aquela que nasce do confronto honesto com a realidade.
Literatura como Exercício de Humanidade
Um empresário do interior de São Paulo me perguntou recentemente por que eu, um advogado tributarista, dedico tanto tempo à leitura de ficção. A resposta é simples: porque a literatura nos treina para a empatia. Quando leio sobre personagens lutando pela sobrevivência em circunstâncias impossíveis, exercito minha capacidade de habitar uma perspectiva diferente da minha.
Aristóteles chamava isso de catarse, a purificação emocional que experimentamos ao testemunhar dramas alheios. Nassim Taleb, pensador contemporâneo que admiro, diria que a literatura nos expõe a “cisnes negros” emocionais: eventos que não prevemos mas que, ao vivenciá-los nas páginas de um livro, nos preparam para a imprevisibilidade da vida real.
A literatura não é escapismo, é preparação.
Por Onde Começar?
Se você só puder ler um livro desta lista, escolha aquele que mais assusta você. Se a ideia de encarar uma mãe difícil parece insuportável, leia Arundhati Roy. Se prefere evitar questões sociais incômodas, mergulhe em Brian Goldstone. Se histórias de amor parecem “coisa de romance”, enfrente Kiran Desai.
O desconforto é o preço da transformação. E a boa literatura sempre cobra esse preço, mas devolve em dividendos de sabedoria que nenhum investimento financeiro consegue igualar.
Já escolheu sua próxima leitura? Eu vou continuar aqui, com minhas noites em claro, na companhia desses autores que ousaram olhar para a condição humana sem piscar.
Este conteúdo reflete as reflexões de Juvenil Alves, filósofo, teólogo, psicanalista e jurista.
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