Uma leitura psicanalítica, filosófica e cultural de um fenômeno global
Escrito por Dr. Juvenil Alves
No final do ano passado, estive na Ásia. Em Xangai, Hong Kong, entre ruas saturadas de neon e shoppings que mais parecem catedrais do consumo tardio, deparei-me com um espetáculo que contrariava minhas expectativas mais óbvias. As filas mais longas não eram para a Apple , eram para a Pop Mart, a loja chinesa que vende pequenas criaturas de pelúcia chamadas Labubus.

Em Xangai, presenciei uma cena que ainda se recusa a sair da minha memória: crianças, jovens, adultos, senhoras elegantemente vestidas, todos sacudindo freneticamente caixas lacradas, tentando adivinhar, pelo som ou pelo peso, qual personagem estaria oculto dentro. Havia algo de ritual naquele gesto. Não era apenas consumo. Era expectativa. Era quase uma oração silenciosa. Como se cada caixa contivesse não apenas um boneco, mas uma promessa , a esperança simbólica de que, por um instante, o mundo fosse gentil.
E há uma ironia histórica difícil de ignorar: a loja da Pop Mart em Xangai fica no bairro de Xintiandi, a cerca de trezentos metros do local onde foi realizado o Primeiro Congresso do Partido Comunista Chinês. Onde antes se arquitetou uma revolução ideológica destinada a reorganizar o destino de uma nação, hoje se formam filas para adquirir pequenos monstros de pelúcia. A utopia coletiva parece ter sido substituída por um consolo íntimo. A promessa de redenção política cedeu espaço a algo mais modesto , mas talvez mais honesto: a promessa de um pouco de conforto emocional portátil.
Meu interesse por esse fenômeno se aprofundou durante um almoço com meu amigo Dr. Alcimar, médico, que também observava intrigado aqueles pequenos monstros de dentes afiados e sorriso ambíguo. “Há algo de metafísico nisso”, ele comentou. A frase permaneceu ecoando em mim. O que leva milhões de pessoas, em pleno século XXI, a desenvolver vínculos emocionais intensos com criaturas de pelúcia grotescas, meio infantis, meio demoníacas?

Foi em Hong Kong que a resposta começou a ganhar forma. A cidade é um formigueiro vertical , milhões de pessoas empilhadas em apartamentos mínimos, conectadas por túneis, passarelas suspensas, escadas rolantes intermináveis. Uma metrópole onde a eficiência venceu a intimidade, onde se pode viver anos sem jamais conhecer o vizinho, onde o contato humano se tornou funcional, rápido, descartável.
Ali , e praticamente apenas ali, entre os lugares que visitei , vi táxis decorados com verdadeiros exércitos de bichinhos de pelúcia observando silenciosamente a estrada. Cada motorista acompanhado por pequenas criaturas que pareciam vigiar, confortar, testemunhar. Não é coincidência que o Labubu tenha nascido nesse ambiente. Criado por Kasing Lung, em Hong Kong, ele emerge de uma cidade que produz uma carência muito específica: a fome de presença.
Com o tempo, percebi que o Labubu não é apenas um brinquedo. Ele é um sintoma cultural. Um deslocamento silencioso do afeto , da comunidade para o indivíduo, do vínculo humano para o objeto, da presença viva para a mediação simbólica.
O fenômeno rapidamente atravessou fronteiras, idades e classes sociais. Senhoras ricas penduram Labubus em bolsas Louis Vuitton que custam o equivalente ao valor de um automóvel. Influenciadores os exibem como talismãs identitários. Celebridades os transformaram em amuletos públicos. A Pop Mart viu sua receita disparar para cifras próximas a dois bilhões de dólares.
Nada disso se explica apenas por marketing. Há algo mais profundo em jogo. Em uma sociedade em que os objetos deixaram de ser comprados por sua utilidade e passaram a ser adquiridos como signos, o Labubu funciona como um símbolo portátil de pertencimento, singularidade e afeto condensado. Ele não é apenas um boneco , ele é uma narrativa sobre quem somos e sobre o que nos falta.
Vivemos uma era em que o consumo se tornou emocional. Compramos para nos consolar, para nos expressar, para nos diferenciar, para preencher vazios que nem sempre sabemos nomear. Nesse contexto, o Labubu opera como um totem urbano contemporâneo, um marcador público de vulnerabilidade e desejo de afeto em um mundo de identidades cada vez mais instáveis.
Ao mesmo tempo, nossas relações se tornaram líquidas, frágeis, facilmente iniciadas e facilmente descartadas. O Labubu oferece o oposto disso: uma presença estável, previsível, sem conflito. Um afeto sem risco. Uma companhia sem exigências.
Talvez seja por isso que ele floresça em uma época marcada por exaustão psíquica, hiperconexão digital e empobrecimento da experiência comunitária real. Em meio ao cansaço coletivo, ele se apresenta como um pequeno antídoto simbólico contra a solidão , um companheiro silencioso que não cobra, não julga, não abandona.
Sob a ótica psicanalítica, é possível compreender o Labubu como um objeto de investimento libidinal substitutivo. Freud já nos ensinava que a energia afetiva não se dirige apenas a pessoas, mas pode ser deslocada para objetos que simbolizam segurança, continuidade ou consolo. Quando os vínculos humanos se tornam instáveis ou dolorosos, a psique busca suportes mais previsíveis.
O Labubu funciona, assim, como uma espécie de fetiche cotidiano suavizado , um objeto que captura afeto, reduz angústia e oferece a ilusão de permanência. Ele não rejeita. Não abandona. Não decepciona. Promete, inconscientemente, um amor sem trauma.
Há também, nesse gesto, uma regressão controlada , um retorno simbólico à infância, período em que o afeto parecia mais direto, mais previsível, mais palpável. Não se trata de infantilização pura, mas de uma estratégia inconsciente de autoproteção contra a ansiedade adulta.
Donald Winnicott talvez ofereça uma das chaves mais delicadas para compreender esse movimento. Seu conceito de objeto transicional , aquele ursinho, paninho ou brinquedo que ajuda a criança a suportar a separação da mãe , descreve um espaço intermediário entre o mundo interno e a realidade externa. Um espaço onde ainda é possível sentir-se protegido.
O Labubu pode ser lido como um objeto transicional tardio , uma tentativa adulta de recriar esse espaço de conforto em um mundo que exige autonomia extrema, produtividade incessante e controle emocional permanente. Ele funciona como uma prótese afetiva. Um pequeno refúgio simbólico onde ainda é permitido depender, apegar-se, sentir-se amparado.
E há um detalhe adicional, de ordem filosófica, que talvez ajude a explicar por que esse fenômeno é tão intensamente corporal. Tomás de Aquino, ecoando Aristóteles, repetia que todo conhecimento passa pelos sentidos , nihil est in intellectu quod non prius fuerit in sensu. Antes de compreender, tocamos; antes de elaborar intelectualmente, sentimos com o corpo.
Talvez por isso as pessoas não se contentem em ver o Labubu nas vitrines ou nas redes sociais. Elas querem pegá-lo, apalpá-lo, sacudir suas caixas, sentir o peso da surpresa nas mãos. O gesto de tocar o Labubu , e até de manusear suas blind boxes , parece confirmar algo profundo: o afeto, para ser crível, precisa atravessar o corpo. Em um mundo cada vez mais digital, imaterial e abstrato, o Labubu devolve a experiência sensível do contato. Ele pode ser um signo, um fetiche ou um objeto transicional , mas é, antes de tudo, algo que se segura, que se aperta, que se sente.
Se olharmos por uma lente lacaniana, poderíamos dizer que o Labubu encarna o objeto do desejo, aquilo que promete preencher a falta , sem jamais preenchê-la por completo. Não desejamos o boneco em si, mas o que ele simboliza: presença, singularidade, ternura, pertencimento, consolo.
A lógica das blind boxes intensifica esse mecanismo. A espera, a incerteza, a repetição, o desejo continuamente reativado , tudo isso encena um ritual moderno da esperança. Cada caixa é uma aposta emocional controlada. Diferentemente das relações humanas, em que o afeto pode falhar, a caixa sempre entrega algo. Nunca vem vazia. É uma pedagogia simbólica da espera sem o risco absoluto da rejeição.
Antes dos Labubus, vieram os pets. Cães e gatos tornaram-se substitutos afetivos para indivíduos solitários, divorciados, enlutados ou emocionalmente desancorados. Funcionam como próteses emocionais vivas , oferecem presença, previsibilidade e afeto relativamente incondicional.
O Labubu parece ser o próximo estágio dessa lógica: o pet miniaturizado, portátil, eterno, sem exigências biológicas. Uma condensação extrema do mesmo desejo: companhia sem perda, vínculo sem dor, presença sem risco.
Há, ainda, um detalhe estético que me intriga profundamente. Os Labubus não são plenamente fofos. Seus dentes afiados, seu sorriso travesso, sua aparência levemente perturbadora introduzem uma ambiguidade essencial. Freud já nos lembrava que o amor humano é estruturalmente ambivalente , amamos e odiamos os mesmos objetos, desejamos e tememos as mesmas presenças.
Um boneco excessivamente angelical seria uma mentira psíquica. O Labubu, ao incorporar algo de estranho e monstruoso, parece reconhecer a verdade dos afetos humanos , que nunca são puros, simples ou isentos de sombra. Talvez por isso ele soe mais honesto do que um ursinho convencional.
Sob uma leitura simbólica mais profunda, essas criaturas evocam arquétipos antigos , o companheiro mágico, o espírito travesso, o ser que habita a fronteira entre o infantil e o demoníaco. Como se, em um mundo desencantado, ainda buscássemos resquícios de magia.
É tentador patologizar tudo isso. Ver regressão, imaturidade, empobrecimento emocional. Mas a psicanálise ensina outra postura: o sintoma é também uma tentativa de solução. Se milhões de pessoas recorrem a pequenos monstros de pelúcia para aliviar a solidão, talvez a pergunta não seja o que há de errado com elas , mas o que há de errado com um mundo que produz tamanha escassez de presença, escuta e intimidade.
Objetos de conforto podem reduzir o estresse, regular emoções e funcionar como âncoras psíquicas em tempos instáveis. São paliativos, sim. Mas profundamente humanos.

Kasing Lung inspirou-se em mitologias, elfos e criaturas mágicas ao criar o Labubu. Há algo de arcaico nessas figuras , como se evocassem um tempo em que o mundo ainda parecia encantado e povoado por presenças invisíveis. Seu sucesso global revela algo essencial: não deixamos de desejar afeto; apenas deslocamos os suportes desse desejo.
Em um mundo que glorifica autonomia, eficiência e desapego emocional, pendurar um pequeno monstro de pelúcia na bolsa , seja ela uma sacola comum ou uma Louis Vuitton , pode ser lido como um gesto silencioso de resistência. Uma confissão pública de que a fome de afeto não desapareceu.
Primeiro vieram os pets. Agora vêm os Labubus. Não é decadência , é adaptação.
Freud diria que buscamos substitutos para o amor que nos falta. Winnicott diria que fazemos o melhor que podemos com os recursos disponíveis. Lacan diria que tentamos dar forma à falta. Baudrillard diria que consumimos signos. Bauman diria que tememos vínculos instáveis. Han diria que estamos cansados e sós. Jung diria que projetamos arquétipos. Tomás de Aquino lembraria que conhecemos o mundo tocando-o. Dr. Alcimar diria que há algo de metafísico.
Todos estariam certos.
O Labubu não resolve a solidão contemporânea. Mas ele a reconhece. E há algo de profundamente humano , talvez até curativo , nesse pequeno monstro que nos olha com seu sorriso dentado e parece dizer: eu sei. eu também.
E, pelo sim e pelo não… depois de tudo isso, talvez eu mesmo acabe comprando um Labubu. Também tenho minhas carências.
Sobre o Autor:
Dr. Juvenil Alves transita entre mundos aparentemente distantes, o rigor técnico do Direito Tributário e a profundidade das questões humanas. Vaticanista desde 1976, dedica-se há quase cinco décadas ao estudo da história da Igreja, das dinâmicas de poder e das forças invisíveis que movem civilizações. Essa formação humanista atravessa sua atuação como advogado, autor e palestrante, permitindo-lhe enxergar, por trás dos balanços e das dívidas fiscais, o sofrimento emocional do empresário, a solidão de quem decide sozinho, a angústia de quem carrega responsabilidades silenciosas, a fome de amparo que não aparece nos relatórios. É dessa sensibilidade que nasce o presente ensaio: um olhar atento às carências contemporâneas e aos pequenos gestos, como abraçar um Labubu, que revelam nossa humanidade persistente.
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